quinta-feira, 29 de maio de 2014

faz de sua negação ser um não em dois
duas vezes estúpido

quarta-feira, 28 de maio de 2014

“Na verdade, as paixões cozinham e recozinham na solidão. É encerrado em sua solidão que o ser de paixão prepara suas explosões ou seus feitos. E todos os espaços das nossas solidões passadas, os espaços em que sofremos a solidão, desfrutamos a solidão, desejamos a solidão, comprometemos a solidão, são indeléveis em nós. E é precisamente o ser que não deseja apagá-los. (…) a lembrança das solidões estreitas, simples, comprimidas, são para nós experiências do espaço reconfortante, de um espaço que não deseja estender-se, mas gostaria sobretudo de ser possuído mais uma vez.”

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.29.

domingo, 25 de maio de 2014

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Talvez a gente caiba aqui: aqui/ali/onde/nãosei: o mundo nos abriu uma brecha

Era 2009 e eu seguia finalizando a produção do meu primeiro projeto como diretor. "Eu já não caibo mais aqui" me guiou a um processo muito humano e de valoração do ambiente interno: a casa dos personagens, o abrigo, o desconforto, a fuga e o questionamento da própria "habitação" em diferentes modulações cromáticas. A casa da infância. A casa que engole. Nos anos seguintes, boa parte dos meus projetos autorais também seguiam por esse interesse. O exame de minha própria relação com o fazer audiovisual culminou, enfim, numa possível catalogação dessas imagens. Foi num contexto muito particular que se deu o meu regresso à capital do estado de Goiás. E é aqui que estou.
Goiânia ressurge assim como um giz-de-cera muito frágil. As primeiras imagens foram desenhadas no projeto anterior como diretor. Ao final de "Um Bastante Sim", percebi que precisava rastrear ainda mais esse desejo de estar aqui de volta. E de filmar em Goiânia.

Meu percurso de viagem de fim de ano privilegiou a amizade: estar com um amigo de infância. Foi uma grande residência artística, de verdade. Eu e Pedro, que assina parte da fotografia desse último e do segundo, temos interesses bem similares e nosso convívio tão feliz acabou colocando em questão certas imagens. Um franco-brasileiro e um goiano. Amigos de escola. Desenhar nas páginas do livro de física. Estávamos ali, num ambiente dele, em sua casa, três diárias, dois rapazes franceses e um equipamento de uma amiga chinesa. O cheiro do bolo de cena produzido com tanto carinho. A luz móvel no rosto de Gael que sorria abraçando, finalmente, o convívio. Nicolas questionando a câmera, pedindo para ser olhado. O roteiro que nasceu a partir de polaroids tão íntimas. O cheiro do poço d'água da casa do Pedro. Talvez a gente caiba aqui/ali/aonde/nãosei: o mundo nos abriu uma brecha.

Pensando bem... não tem erro. Vai dar tudo certo. Talvez.

Essa beleza que são os encontros me fizeram deparar novamente com a possibilidade. Tudo conjugado pelo "verbo" talvez. Talvez o vídeo não nasceria sem que esse último encontro não tivesse existido. Ao seu modo foi um encontro, existiu. Eu não sei sentir saudade de quem eu nunca vi. Talvez. Pois foi dividindo as experiências de São Paulo, da questão da volta, da imagem da viagem,  que esse projeto nasceu, que foi montado. Fiquei esperando um encontro. Ele não existiu. A imagem. Aquela que lhe caberá sem sobras ou falta. Aquela que já não cabe mais numa tela azul de celular. Até certa altura do projeto, a montagem do filme privilegiava o encontro dos dois personagens. O meu, que não existiu,  também virou imagem. Se agora, anos depois, o filme apresenta-se no plural, mas com um grande "talvez", a falta, achei justo, naquela última montagem, que os personagens não estivesses juntos.

Foi ali, num celular, que eu mostrei as primeiras imagens a ele. Nasceu cheio de incertezas. A gente também conta o que a gente é através daquilo que vê. E está aqui em texto. Está ali na placa que termina o vídeo. Ele viu. Foi coincidência a placa.

O título deste novo, bem como parte dos procedimentos adotados, retomam as questões de isolamento, de objetos simples,  dos balões, da câmera frontal e a ausência. A moldura também tem se tornado um importante elemento naquilo que venho realizado. Essa experimentação tem se tornado uma tarefa de questionamento: o desejo de colocar cada vez mais a noção de "enquadramento/quadro" em conflito. Este é um projeto "plural", conjugado a partir de "a gente", de "nós", de "dois". A gente.

"Talvez a gente caiba aqui" é um vídeo muito simples que tem a palavra "amigo" tatuada nas costas. É um projeto que busca o que eu possa ter deixado certa vez em Goiânia. É um exercício de análise. É um projeto de cerrado, mas não tem nada a ver com o FICA. É uma de declaração de amor e frustração à dúvida. É uma retomada de paisagem do azul do céu do cerrado, por isso brinca com a capital do país. É um vídeo de alegria em francês. É a topografia do que outros amigos podem sentir. É a segunda parte iniciada em 2009 e não será a última porque acreditamos em encontros. Eles precisam existir. 

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Talvez a gente caiba aqui. Com Gaël Pontieux-Simonnet e Nicolas Gerifaud, fotografia de Pedro Domeignoz Horta e Kaco Olímpio, produção executiva de Lidiana Reis, trilha sonora original por Rui Bordalo, finalização e montagem de Ludielma Laurentino, projeto gráfico por Rodolfo Brasil e Beatriz Perini, ass. de produção de Lucas Peixoto. Filmado em Paris/Goiânia, 2014.

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domingo, 18 de maio de 2014

todo esse tempo
30 tenta ficar em silêncio 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

a casa vazia 
a câmera reverbera o ritmo
o quarto bem arrumado 
a cozinha desfeita 
a voz ali na escada 
mais uma vez
(é possível escutar) 
"não esqueço você"