segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

"nada vai permanecer no estado em que está" investiga as qualidades da passagem do tempo ao propor uma divisão de três blocos (como há a proposição de início-meio-fim em uma narrativa historiográfica). se, por um lado, há o desvio da noção de tempo, alicerçada pela figura da chuva, elemento que guia o significado cronológico da vida da personagem feminina central, por outro há certo reforço da experimentação da imagem, tal como sugere o parecer fundamental da videoarte.
as diferentes trocas de figurino, prática quase anulada pela extensão do vídeo através da fase de montagem, revelam a dúvida, o casamento interrompido e, claro, a disputa de dois homens pela mesma mulher. os procedimentos de ligação entre os três personagens tornam-se metafóricos à medida que há uma sobreposição de seus rostos até formar uma homogeneidade na criação de um único sentimento que, à primeira análise, é contemplativo. são três figuras que erram, que pouco se questionam, mas vale a dúvida como prática-guia em torno das inquietações dos gestos, da perplexidade das estações do ano.
se há a interepretação de que nada permanecerá no estado em que está, ou seja, projeta-se a questão para um futuro indefinido, pode ser que, em presente, chuva e isolamento (estão próximos, mas não se olham) reordenem a questão, proporcionando uma distinta aliança oriunda pelo clima e também pelo espaço indefinido, a parede branca.

-
este vídeo foi exibido em são paulo no espaço satyros 2 no mês de dezembro e integra o processo de criação do espetáculo *555, cuja dramaturgia é de cristiane gomes e patrícia negrão e dirigido por cristiano dantas

este vídeo é

com priscila gomes, nilton melo e lucas frança
direção e concepção minha e do guilherme catofaroni
fotografia de rogério che
montagem e finalização de aline nóbrega
design gráfico de gabriel godinho

agradecemos a j. c. serroni, luis rossi, mauricio svartman, aline delouya e frederico foroni/estúdio terra forte


fica tão bonito quando é sem querer

domingo, 30 de dezembro de 2012

num mundo com tanta gente aparentemente infalível, interessante e esperta, fico pensando que se disséssemos mais "eu não sei", isso não acarretaria em tristeza ou prejuízo. a gente precisa se dar ao direito de dizer mais "eu não sei". se lançar ao risco.

domingo, 16 de dezembro de 2012

bird gehrl
eu não vou me esquecer de nenhuma palavra
e por isso farei um esforço danado para que eu me recorde, antes de dormir, de cada boca que emitiu aquelas palavras
pois não há suporte mais precioso do que suas bocas que diagnosticaram, tão perto do fim, tamanho desespero: se foge, amargura o destino da primeira palavra
se continua, posiciona os mais de oitenta carpetes "bem-vindo" pelo silêncio da sala de aula: pisar em todos eles não é um sacrifício, tampouco uma vontade daquele que escreve
vida que vai em registro de uma única nota
janela que inunda a parte traseira do carro: elas dirigem juntas, enquanto ele vomita as palavras que sente dificuldade de dizer
sempre haverá a dor do pronunciamento: inefável "bem-vindo"
carpetes macios envolverão a despedida
sujaram o asfalto no meio do caminho: vogais misturadas à bebida alcóolica darão crédito ao mundo, ao afeto, à partilha

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

cartão de natal, 5

1. cabelos solares substituem a cor das gelatinas

você fica linda quando a luz te atravessa. há uma energia tão especial nisso. bendito seja deus, ou qualquer outra força do bem, que botou a gente junto nisso. desejo a você muita felicidade nessa nova etapa estudantil: ela vai chegar muito poderosa e sei que você será forte para isso. digo que quero estar perto. mesmo. quero saber de você sempre. quero cultivar o nosso afeto. quero ver você atravessando o palco de um lado para outro.

2. o número da calça

vesti você e, além disso, ofereci a você os meus espaços três vezes em dois anos. em todos esses momentos, você foi lindo e gentil. quero muito que lembre-se daqui pra frente que o seu número de calça ideal é sim 38. porque aí as suas pernocas ficam mais alongadas, do tamanho que eu vejo a sua alma. me emociono só de lembrar você e sua risadinha - para dentro ou fora de gaiolas. me emociono com você tirando o lp da elis da mala. me emociono com você.

3. a escala de um palco grande

jamais vou me esquecer do jeito como você dividia a nossa cumplicidade com a vida daquela bienal. não há resistência no nosso afeto. não há. e eu vou pedir fogo a você de longe quando for necessário. para o cigarro, para aquela arvorezinha em frente à porta da escola. para quando você pensar uma coisa nova. vai dar certo esse seu ciclo novo. e, caso contrário, atearemos fogo nos cruzamentos, dividiremos o meu macacão (que fica melhor quando ele é seu). nós dançaremos.

4. bolinhas de natal desenham um percurso

eu não me engano: meu carinho por você não pediu ensaios, surgiu forte. quando você cantou lá no  verde e aí, já amarelo, caiu naquela congregação caos, eu comemorei. ai, tem tantas câmeras  esperando por você. uma porção colorida de jóias decoram seu pescoço e cabeça. você se move e a fumaça sobe. os olhos brilham. você atendeu ao meu pedido. em breve, todo mundo vai pedir você: porque você é linda, porque você é sensível, porque você chora com o riso. e ri. e o mundo precisa pedir mais sensibilidade, mais riscos, mais risos.

5. aquela peça que vimos era mesmo muito chata

pequenas porções de desejos em você, de cabelos secos ou molhados, manifestam uma insegurança que não deveria, que não pode existir. se, lá no começo, eu queria dizer isso a você (e não disse) o contrário se confirmou. vi você lindo: poderoso e seguro. não por conta do gel, mas porque você estava ali. foi o meu sorriso. "bem-vindo", eu devo ter pensado. bom demais você pertinho. bom demais o jeito carinhoso como a sua casa está organizada. bom demais perceber o nosso carinho: dois meninos (falantes) perplexos, em silêncio, com o fim do espetáculo ruim. você é lindo. lindo. feio é o espetáculo. bonito também é o jeito como você cuida das coisas.

fim do ato 03

domingo, 2 de dezembro de 2012

gente que tem, como eu, tanta dificuldade de encontrar um novo lar para suas plantinhas, jamais deve se meter a cuidar de gatos, cachorros, coelhinhos, entre outros.