segunda-feira, 26 de março de 2012

quando eu contei a ele sobre o acontecido, a proposta de um novo-futuro amor, e ele não titubeou, foi como se eu tivesse feito uma resenha do gesto de um piscar de cílios, foi como se eu tivesse traçado um pequeno pontoevírgula, foi como se
estava tudo ali, quando a gente estava andando bicicleta e a minha mãe não sabia dirigir, não entendia de carros.

quarta-feira, 7 de março de 2012

uma carta laranja

(...) trabalharemos em dois suportes de gravação da imagem. e também uma localização espaço-temporal pouco definida, mas que conta que parte da diegese acontece no passado. foi. mas memória é isso: é desencapar um monte de cartas, caixas, livros e fitas vhs para que se possa ver a que modo aquelas imagens se encontram.
desenvolvemos um amplo caderno de referência e desenhos dos ambientes. fixamos numa parede branca a evolução cromática do filme, marcada pelas diferenciações de mobília e tapeçaria da casa familiar, a primeira sequência do filme, e a nova casa, ambiente final do filme.
percebemos então que o filme pedia que a imagem estetizada pela fotografia e arte caminhasse em direção ao laranja: muitos objetos que serão tocados pelos personagens terão esta coloração e mais, corresponderão ao pôr-do-sol que finaliza o curta.
(...)
no meio do caminho, conheci o trabalho de mathieu grac, um fotógrafo muito exemplar. em "boyz and girlz du net" (2011), com a
câmera posicionada dentro do quarto de jovens, revela-se a relação que estes possuem com o computador e a fotografia, com o mundo novo, com a exibição. para beatriz, seguimos o caminho inverso: ela se mostra inquieta com o passado, com as cartas que encontra na dispensa da casa. não se mostra, não se exibe: vai em direção à porta da rua, em busca de um solução urgente para o conflito que nasce ali, com o objeto.

*texto-guia com as primeiras impressões do trabalho de direção de arte para o filme "uma carta para heitor" (2012).

segunda-feira, 5 de março de 2012

poucas vezes em poucos tempos sentiu-se a mão pesada que é o tempo.
o seu dele de amor demais não revelou tais instantes. era engraçado e extremamente cansativo como se observava de manhã. era engraçado sim.
sentiu-se que a fronteira estava dada por algo muito forte que imaginou ser algo bastante parecido com sinceridade, o sentimento. mas não. afogou-se naquele primeiro mar. engoliu muita água e viveu, mesmo sem respiração boca-a-boca.
não se amadurece por imaginar que o tempo consome. não se amadurece por imaginar que poderá contar com aquele antigo e primeiro. ele descobriu naquele instante do mergulho e então colocou-se imerso. parado.

estava assustado como um cão que perde o dono. não sabia por onde começar, por onde esconder seus rastros e vestígios e alçar novas profundezas no mar que é a vida. não sabia como. mas tinha vários porquês.
guiado por destroços de navio, atracados no cais, próximos à casa, decidiu por descansar durante seis longos meses. acordava tarde e escrevia. de tarde, leitura. de noite, mantinha um contato discreto com uma dúzia de amigos.
preferiu não dar sinais de presença, de local, por garantir-se na imagem do espelho que funcionava como uma metáfora da dúvida. preferiu exercer a função de concha estacionada, isenta de inércia, na maré. com a chegada da lua, ao longo dos dois últimos meses, a água subia. navios avistavam. navios pediam por socorro.

a chegada do começo do outono fez com que as primeiras folhas das árvores caíssem. no último dia dos tais seis meses, decidiu por voltar. a chegada foi marcada por uma claustrofobia de espaço. não tinha água e aquilo era repulsivo. doía mais do que a calmaria dos seis meses de mar. depois de respirar, os olhos fechados por dez segundos, suspirou. muita água salgada saiu de todos os buracos do seu corpo, fazendo com que a cidade inundasse. estava no fundo mar e escutava poucos barulhos lá embaixo. deitou-se. amadureceu. ficou mais dourado com a chegada do sol.

sexta-feira, 2 de março de 2012

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eu nunca imaginei que um dia eu fosse estudar teatro. quando criança, frequentei uma escola muito especial no interior do estado de goiás e, de imediato, participava de algumas apresentações. em uma dessas ocasiões, uma professora, apaixonada pela maneira como eu recortava alguns papéis para aquilo que imagino ter sido a minha primeira manifestação visual, disse que eu deveria ser o protagonista da nova peça. eu fui, me embananei todo, esqueci o texto e palpitava nos desenhos que foram feitos para o fundo de nossa apresentação. alguma coisa estava acontecendo ali que mais tarde eu entenderia.

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chegando em são paulo frequentei algumas aulas do cenógrafo cyro del nero. talvez eu tenha sido de sua última turma de alunos: aconteceu tudo muito próximo à data em que ele faleceu. eu costumava dizer às pessoas mais queridas que, quando ele falava de teatro, de cenário de teatro e de ator, alguma coisa acontecia em mim. penso que a maneira como ele vislumbrava o espaço, destituindo a questão “espaço” e “lugar”, estava me motivando a agir como eu o enxervaga: um artista pássaro. E mais: um ser humano pássaro. a cenografia não-decorativa, não-cosmética, que está a serviço de um processo, de uma cena, o contato plástico-visual e o ator.

mais tarde eu decidi que deveria estudar teatro, antes de cenografia teatral. comecei a ler aqueles livros de teatro. outro sentimento de entrega acontecia. a imagem fotográfica, tão estática, não estava abraçando um grande questionamento que eu havia desenvolvido. uma imagem fotográfica de um cenário não é o cenário em si, por não experenciar a relação do ator no espaço. deixa de ser cenário um cenário fotografado, torna-se apenas uma “fotografia de cenário”.

tudo isso me motivou à encontrar josé carlos serroni. dia desses me peguei lembrando de uma vez, em são paulo, procurar pelo curso que era oferecido no seu espaço cenográfico. alguém me disse que o curso não era mais oferecido. Lembro de que chovia e que as luzes dos carros, na consolação, faziam brilhar a água do asfalto. e lembro também que eu desejei entrar, mas estava fechado.

fui aprovado no curso de cenografia e figurino, oferecido pela sp escola de teatro, coordenado pelo serroni. isso significou uma nova imersão, um novo processo. eu estava diante de novas questões, de sentimentos que simulavam voos de pássaros: por vezes mais baixos, mais altos, mas voando. alguém estava me transportando de um lugar para o outro, alguém estava me motivando àquele novo tipo de olhar.

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quando eu entendi, ainda na faculdade de audiovisual, que cenografia era exatamente aquilo que eu queria fazer, eu dedici por respirar este tema todos os dias. e continua sendo. na avaliação para admissão à escola, eu disse isso. e tive vontade de chorar já no meu primeiro contato com o cara que seria mais tarde o meu formador. e eu, seu aprendiz. emocionante.

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um ano já passou. a respiração continua sendo a mesma: e será. a gente, quando cresce, sabe que algumas coisas não mudam. falta mais um ano, só mais um, para que este contato, tão começo de, possa ser efetuado. para que eu não esqueça que este é um momento em que eu, tão passarinho, esteja em consonância exata com aquilo que penso das coisas. como alguém que está em cena, como alguém que deseja mais. como alguém que abraça o teatro e imediatamente tem seu cenário interno tranformado e então adquire um novo figurino.