segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

"nada vai permanecer no estado em que está" investiga as qualidades da passagem do tempo ao propor uma divisão de três blocos (como há a proposição de início-meio-fim em uma narrativa historiográfica). se, por um lado, há o desvio da noção de tempo, alicerçada pela figura da chuva, elemento que guia o significado cronológico da vida da personagem feminina central, por outro há certo reforço da experimentação da imagem, tal como sugere o parecer fundamental da videoarte.
as diferentes trocas de figurino, prática quase anulada pela extensão do vídeo através da fase de montagem, revelam a dúvida, o casamento interrompido e, claro, a disputa de dois homens pela mesma mulher. os procedimentos de ligação entre os três personagens tornam-se metafóricos à medida que há uma sobreposição de seus rostos até formar uma homogeneidade na criação de um único sentimento que, à primeira análise, é contemplativo. são três figuras que erram, que pouco se questionam, mas vale a dúvida como prática-guia em torno das inquietações dos gestos, da perplexidade das estações do ano.
se há a interepretação de que nada permanecerá no estado em que está, ou seja, projeta-se a questão para um futuro indefinido, pode ser que, em presente, chuva e isolamento (estão próximos, mas não se olham) reordenem a questão, proporcionando uma distinta aliança oriunda pelo clima e também pelo espaço indefinido, a parede branca.

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este vídeo foi exibido em são paulo no espaço satyros 2 no mês de dezembro e integra o processo de criação do espetáculo *555, cuja dramaturgia é de cristiane gomes e patrícia negrão e dirigido por cristiano dantas

este vídeo é

com priscila gomes, nilton melo e lucas frança
direção e concepção minha e do guilherme catofaroni
fotografia de rogério che
montagem e finalização de aline nóbrega
design gráfico de gabriel godinho

agradecemos a j. c. serroni, luis rossi, mauricio svartman, aline delouya e frederico foroni/estúdio terra forte


fica tão bonito quando é sem querer

domingo, 30 de dezembro de 2012

num mundo com tanta gente aparentemente infalível, interessante e esperta, fico pensando que se disséssemos mais "eu não sei", isso não acarretaria em tristeza ou prejuízo. a gente precisa se dar ao direito de dizer mais "eu não sei". se lançar ao risco.

domingo, 16 de dezembro de 2012

bird gehrl
eu não vou me esquecer de nenhuma palavra
e por isso farei um esforço danado para que eu me recorde, antes de dormir, de cada boca que emitiu aquelas palavras
pois não há suporte mais precioso do que suas bocas que diagnosticaram, tão perto do fim, tamanho desespero: se foge, amargura o destino da primeira palavra
se continua, posiciona os mais de oitenta carpetes "bem-vindo" pelo silêncio da sala de aula: pisar em todos eles não é um sacrifício, tampouco uma vontade daquele que escreve
vida que vai em registro de uma única nota
janela que inunda a parte traseira do carro: elas dirigem juntas, enquanto ele vomita as palavras que sente dificuldade de dizer
sempre haverá a dor do pronunciamento: inefável "bem-vindo"
carpetes macios envolverão a despedida
sujaram o asfalto no meio do caminho: vogais misturadas à bebida alcóolica darão crédito ao mundo, ao afeto, à partilha

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

cartão de natal, 5

1. cabelos solares substituem a cor das gelatinas

você fica linda quando a luz te atravessa. há uma energia tão especial nisso. bendito seja deus, ou qualquer outra força do bem, que botou a gente junto nisso. desejo a você muita felicidade nessa nova etapa estudantil: ela vai chegar muito poderosa e sei que você será forte para isso. digo que quero estar perto. mesmo. quero saber de você sempre. quero cultivar o nosso afeto. quero ver você atravessando o palco de um lado para outro.

2. o número da calça

vesti você e, além disso, ofereci a você os meus espaços três vezes em dois anos. em todos esses momentos, você foi lindo e gentil. quero muito que lembre-se daqui pra frente que o seu número de calça ideal é sim 38. porque aí as suas pernocas ficam mais alongadas, do tamanho que eu vejo a sua alma. me emociono só de lembrar você e sua risadinha - para dentro ou fora de gaiolas. me emociono com você tirando o lp da elis da mala. me emociono com você.

3. a escala de um palco grande

jamais vou me esquecer do jeito como você dividia a nossa cumplicidade com a vida daquela bienal. não há resistência no nosso afeto. não há. e eu vou pedir fogo a você de longe quando for necessário. para o cigarro, para aquela arvorezinha em frente à porta da escola. para quando você pensar uma coisa nova. vai dar certo esse seu ciclo novo. e, caso contrário, atearemos fogo nos cruzamentos, dividiremos o meu macacão (que fica melhor quando ele é seu). nós dançaremos.

4. bolinhas de natal desenham um percurso

eu não me engano: meu carinho por você não pediu ensaios, surgiu forte. quando você cantou lá no  verde e aí, já amarelo, caiu naquela congregação caos, eu comemorei. ai, tem tantas câmeras  esperando por você. uma porção colorida de jóias decoram seu pescoço e cabeça. você se move e a fumaça sobe. os olhos brilham. você atendeu ao meu pedido. em breve, todo mundo vai pedir você: porque você é linda, porque você é sensível, porque você chora com o riso. e ri. e o mundo precisa pedir mais sensibilidade, mais riscos, mais risos.

5. aquela peça que vimos era mesmo muito chata

pequenas porções de desejos em você, de cabelos secos ou molhados, manifestam uma insegurança que não deveria, que não pode existir. se, lá no começo, eu queria dizer isso a você (e não disse) o contrário se confirmou. vi você lindo: poderoso e seguro. não por conta do gel, mas porque você estava ali. foi o meu sorriso. "bem-vindo", eu devo ter pensado. bom demais você pertinho. bom demais o jeito carinhoso como a sua casa está organizada. bom demais perceber o nosso carinho: dois meninos (falantes) perplexos, em silêncio, com o fim do espetáculo ruim. você é lindo. lindo. feio é o espetáculo. bonito também é o jeito como você cuida das coisas.

fim do ato 03

domingo, 2 de dezembro de 2012

gente que tem, como eu, tanta dificuldade de encontrar um novo lar para suas plantinhas, jamais deve se meter a cuidar de gatos, cachorros, coelhinhos, entre outros.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

fiquei com medo de não conseguir chorar. ainda bem que veio.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

controle. auto.

sábado, 27 de outubro de 2012

as ruas pequenas que parecem dividir o que acontece comigo e aquilo que se esparrama no próximo quarteirão

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

recortando as cenas para a apresentação de breve

sábado, 6 de outubro de 2012

o amor desbota.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

mãe, aniversário e lavoura arcaica


foi a minha mãe quem me apresentou "lavoura arcaica" pela primeira vez. estávamos na locadora de uma cidade do interior de goiás e, por curiosidade, sugeri locarmos o dvd do filme, que ela já conhecia.
eu estava no ensino médio e, naquela ocasião, me inundava de história da arte todos os dias, por amor e pela prova seriada de artes visuais da unb.

lembro que caí num chororô descomunal quando terminou o filme na sala da minha casa e, de alguma maneira, aquilo me deu um impulso pra faculdade de audiovisual.

o fato é que amanhã, no dia do aniversário dela, acontece a exibição do lavoura em película no antigo unibanco, atual itaú. vou feliz. vou ficar pensando nela até o último instante. e quando for o final da tarde, vou ligar pra desejar parabéns e dizer que sim, que ela teria gostado bastante de assistir ao filme comigo, naquela imagem maior.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

observa o jeito 
como 
todo o dia te trata 

e
ntrelaça os cílios com 
os meus

observa
obrigatoriamente
(tão claro)
o novo abraço dado

domingo, 5 de agosto de 2012

reunindo as forças para uma nova mudança. dói.

terça-feira, 10 de julho de 2012

aline me presenteou com um livro sobre a história da avenida paulista: um que não está corrigido de textos que dão conta do crescimento desenfreado da cidade, bem como da quantidade de casas que foram derrubadas por conta da construção de prédios grandes com duas ou três ou nenhuma palmeira - quase que plástico e vidro - ilustrativa daquele sentimento de preenchimento e exclusão da urbanização. é só um livro novo, publicação dos anos 1980 com fotos de fachadas, de interiores e de interiores de pessoas vestidas de linho e algodão que, por um desvario de espaço-tempo, entendem as calçadas com apreço e, aprisionadas pela capa bonita e duradoura, parecem dar conta do enorme esforço de despedida que são as primeiras décadas de um século de desassossego.

sábado, 7 de julho de 2012

silêncio.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

agradeço o jeito como aquelas palavras foram parar na minha mesa, embora eu precise contar aqui que aquele sonho parecia maldição. deve haver algum jeito de promover um descanso, pois eu estou um pouco debilitado; é fim de semestre, portanto, não pareceria frágil demais, bobo demais, dizer aqui que estou mesmo precisando de repouso e silêncio.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

o que eu pude, assim dessa maneira, foi observar aquela encenação a que fui submetido. eu repeti cinco vezes essa ditadura imensa que é a própria vida; quem sabe assim tão agoniado eu pudesse pertencer a um novo discurso desleal

se me obrigo a revisitar parte aquilo que já aconteceu, faço de conta que já acabou; mas não; se me obrigo a me descolar num espaço-tempo indefinido por nós dois é porque tá tudo ao contrário; deve existir uma solução menos petulante para tais indefinições; não respeito

o que eu fiz, assim dessa maneira, foi perambular enquanto olhava para baixo na tentativa de demarcação de território; bom dia; não repito. fica aquela dor no peito, uma vontade de gritar para solucionar um terço de sentimento

mas é mundo. tem tantos carros, tem tanto barulho, que não adianta gritar; vai, sozinho, pega o ônibus e vai, e volta

terça-feira, 19 de junho de 2012

entre uma nova anotação no caderno de capa de azul eu faço com que esta história se torne ainda mais precisa. é chegada a hora de me aproximar do último combate. pode ser que não seja, pode ser só o começo.

mas aí eu vou tomando fôlego, fazendo com que a capa do caderno assuma uma postura dramatúrgica da minha vida. todas as cores, todas, se convertendo em dramaturgia enviesada.

terça-feira, 29 de maio de 2012

4h e ele entrou em casa.

sábado, 26 de maio de 2012

pedaço de mim

oh, pedaço de mim
oh, metade adorada de mim
lava os olhos meus
que a saudade é o pior castigo
e eu não quero levar comigo
a mortalha do amor
adeus

(com os barulhos e suspiros de milton escondidos no canto dos versos e zizi olhando o momento de entrar com a voz)

(pois eu tenho certeza absoluta que essa foi a sensação que a minha avó teve quando perdeu ele, o meu avô)


sexta-feira, 25 de maio de 2012

a maneira como campinas se apresenta como uma cidade melancólica.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

estático, movimento da cena 01: branco: o jovem príncipe sentado próximo ao muro de nuvens
semi-repouso, movimento da cena 02: verde: o jovem príncipe cantarolando no canto da rua
em movimento, cena 03: azul: o jovem príncipe rompe a moldura do quadro para

* estudos da primeira videoperformance
são paulo, 2012
transcrição do caderno de desenhos 

terça-feira, 15 de maio de 2012

muito tocado por lygia pape.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

su mirada

com a chegada de marcelo e a disposição de nossos caminhos por esta cidade questionei a validade do discurso da direção de arte frente à narrativa. sobre a difícil escolha de caracterização dos ambientes, o formato a que os objetos devem pertencer e também a questão da liberdade, a possível autonomia, do departamento.
é engraçado isso de um cara que não é paulistano apresentar a cidade a um estrangeiro. seria uma maneira também de, a certo olhar, ressignificar os espaços, a favor de um novo encontro. pois toda explicação é condicionada a um certo tipo de olhar, de dois estrangeiros. então, eu poderia reafirmar que estava conhecendo também, a favor do conhecimento de um outro indivíduo.
e o marcelo é muito atento. não perde a oportunidade para diferenciar a que angulação pertence o enquadramento do seu olhar. foi como a minha tentative frustrada quando elaborei uma série de desenhos e poemas, intitulados de “desenhei são paulo com giz de cera”. como alguém que desenha com um material muito sensível à água; técnica planificada na sensibilidade do giz que a qualquer instante pode quebrar, sofrer uma nova rachadura, fragilizar-se. ele entendeu a que tipo de discurso o meu olhar pertencia, a maneira como alguém de vinte e três anos guia a imagem. e colocou-se de prontidão a investigar o que de são paulo existe em são paulo. e mais: reconhecer possíveis espaços inabitados por seus enquadramentos não fundamentados pelo dispositivo – o olhar, su mirada – a tanto tempo, trinta e poucos anos.
fico feliz por precerber tantos encontros. parece brincadeira de criança essa cidade quando faz com que a gente aprenda tanto, de maneira intuitiva, nada didática, uma quantidade imensa de coisas em tão pouco tempo.
a questão de despedida, dei a ele um cd do cartola. durante as nossas caminhadas, de tanto eu comentar o estágio da minha pesquisa sobre central do brasil, ofereci a ele esta junção do melhor do melhor de cartola a fim de que ele, também encantado pelo filme, pudesse conhecer mais daquelas músicas, como uma guia para todo o percurso de josué, portanto da dora também.
foi uma maneira que encontrei de aproximar os discursos. aproximar a poesia. aproximar, como uma ponte. marcelo gostará de cartola, não tenho dúvidas.

terça-feira, 1 de maio de 2012

tem gente aqui que espera que aconteça alguma coisa muito boa em maio.

domingo, 29 de abril de 2012

quando fotografo um cenário sem a presença física do ator vestido de figurino, portanto de personagem, e caracterizado, fica vazio, fica incompleto. a fotografia desse cenário sem o corpo de alguém, que faz daquele espaço-enquadramento um espaço-possível, faz parecer que o ambiente fica destituído daquilo que é mais importante: o pertencimento. dizer que antes de ser "cadeira" (o objecto-quase do saramago) é a cadeira de alguém.
o objeto isolado, a mobília, o revestimento do chão, a textura da parede... sem ator não vale a pena. a fotografia de um cenário não é o cenário em si, por não resultar no corpo do ator (e depois no enquadramento do dispositivo) a experiência do ambiente.


ator é sagrado.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

término de pesquisa me emociona tanto.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

rigor estético

quarta-feira, 11 de abril de 2012

você deveria ter melhor admirado a construção afetiva do apartamento.

dizer não, tão rápido, não quer dizer um não absoluto. se você voltar e dizer sim, eu vou dizer sim vai ser sim e todas as sílabas de todas as palavras vão cantarolar sim enquanto você não escuta eu te chamar enquanto você observa o barulho gigante da minha janela

domingo, 8 de abril de 2012

foi joão ubaldo ribeiro e o "viva o povo brasileiro" quem me trouxe para a música popular brasileira.

segunda-feira, 26 de março de 2012

quando eu contei a ele sobre o acontecido, a proposta de um novo-futuro amor, e ele não titubeou, foi como se eu tivesse feito uma resenha do gesto de um piscar de cílios, foi como se eu tivesse traçado um pequeno pontoevírgula, foi como se
estava tudo ali, quando a gente estava andando bicicleta e a minha mãe não sabia dirigir, não entendia de carros.

quarta-feira, 7 de março de 2012

uma carta laranja

(...) trabalharemos em dois suportes de gravação da imagem. e também uma localização espaço-temporal pouco definida, mas que conta que parte da diegese acontece no passado. foi. mas memória é isso: é desencapar um monte de cartas, caixas, livros e fitas vhs para que se possa ver a que modo aquelas imagens se encontram.
desenvolvemos um amplo caderno de referência e desenhos dos ambientes. fixamos numa parede branca a evolução cromática do filme, marcada pelas diferenciações de mobília e tapeçaria da casa familiar, a primeira sequência do filme, e a nova casa, ambiente final do filme.
percebemos então que o filme pedia que a imagem estetizada pela fotografia e arte caminhasse em direção ao laranja: muitos objetos que serão tocados pelos personagens terão esta coloração e mais, corresponderão ao pôr-do-sol que finaliza o curta.
(...)
no meio do caminho, conheci o trabalho de mathieu grac, um fotógrafo muito exemplar. em "boyz and girlz du net" (2011), com a
câmera posicionada dentro do quarto de jovens, revela-se a relação que estes possuem com o computador e a fotografia, com o mundo novo, com a exibição. para beatriz, seguimos o caminho inverso: ela se mostra inquieta com o passado, com as cartas que encontra na dispensa da casa. não se mostra, não se exibe: vai em direção à porta da rua, em busca de um solução urgente para o conflito que nasce ali, com o objeto.

*texto-guia com as primeiras impressões do trabalho de direção de arte para o filme "uma carta para heitor" (2012).

segunda-feira, 5 de março de 2012

poucas vezes em poucos tempos sentiu-se a mão pesada que é o tempo.
o seu dele de amor demais não revelou tais instantes. era engraçado e extremamente cansativo como se observava de manhã. era engraçado sim.
sentiu-se que a fronteira estava dada por algo muito forte que imaginou ser algo bastante parecido com sinceridade, o sentimento. mas não. afogou-se naquele primeiro mar. engoliu muita água e viveu, mesmo sem respiração boca-a-boca.
não se amadurece por imaginar que o tempo consome. não se amadurece por imaginar que poderá contar com aquele antigo e primeiro. ele descobriu naquele instante do mergulho e então colocou-se imerso. parado.

estava assustado como um cão que perde o dono. não sabia por onde começar, por onde esconder seus rastros e vestígios e alçar novas profundezas no mar que é a vida. não sabia como. mas tinha vários porquês.
guiado por destroços de navio, atracados no cais, próximos à casa, decidiu por descansar durante seis longos meses. acordava tarde e escrevia. de tarde, leitura. de noite, mantinha um contato discreto com uma dúzia de amigos.
preferiu não dar sinais de presença, de local, por garantir-se na imagem do espelho que funcionava como uma metáfora da dúvida. preferiu exercer a função de concha estacionada, isenta de inércia, na maré. com a chegada da lua, ao longo dos dois últimos meses, a água subia. navios avistavam. navios pediam por socorro.

a chegada do começo do outono fez com que as primeiras folhas das árvores caíssem. no último dia dos tais seis meses, decidiu por voltar. a chegada foi marcada por uma claustrofobia de espaço. não tinha água e aquilo era repulsivo. doía mais do que a calmaria dos seis meses de mar. depois de respirar, os olhos fechados por dez segundos, suspirou. muita água salgada saiu de todos os buracos do seu corpo, fazendo com que a cidade inundasse. estava no fundo mar e escutava poucos barulhos lá embaixo. deitou-se. amadureceu. ficou mais dourado com a chegada do sol.

sexta-feira, 2 de março de 2012

,

eu nunca imaginei que um dia eu fosse estudar teatro. quando criança, frequentei uma escola muito especial no interior do estado de goiás e, de imediato, participava de algumas apresentações. em uma dessas ocasiões, uma professora, apaixonada pela maneira como eu recortava alguns papéis para aquilo que imagino ter sido a minha primeira manifestação visual, disse que eu deveria ser o protagonista da nova peça. eu fui, me embananei todo, esqueci o texto e palpitava nos desenhos que foram feitos para o fundo de nossa apresentação. alguma coisa estava acontecendo ali que mais tarde eu entenderia.

***

chegando em são paulo frequentei algumas aulas do cenógrafo cyro del nero. talvez eu tenha sido de sua última turma de alunos: aconteceu tudo muito próximo à data em que ele faleceu. eu costumava dizer às pessoas mais queridas que, quando ele falava de teatro, de cenário de teatro e de ator, alguma coisa acontecia em mim. penso que a maneira como ele vislumbrava o espaço, destituindo a questão “espaço” e “lugar”, estava me motivando a agir como eu o enxervaga: um artista pássaro. E mais: um ser humano pássaro. a cenografia não-decorativa, não-cosmética, que está a serviço de um processo, de uma cena, o contato plástico-visual e o ator.

mais tarde eu decidi que deveria estudar teatro, antes de cenografia teatral. comecei a ler aqueles livros de teatro. outro sentimento de entrega acontecia. a imagem fotográfica, tão estática, não estava abraçando um grande questionamento que eu havia desenvolvido. uma imagem fotográfica de um cenário não é o cenário em si, por não experenciar a relação do ator no espaço. deixa de ser cenário um cenário fotografado, torna-se apenas uma “fotografia de cenário”.

tudo isso me motivou à encontrar josé carlos serroni. dia desses me peguei lembrando de uma vez, em são paulo, procurar pelo curso que era oferecido no seu espaço cenográfico. alguém me disse que o curso não era mais oferecido. Lembro de que chovia e que as luzes dos carros, na consolação, faziam brilhar a água do asfalto. e lembro também que eu desejei entrar, mas estava fechado.

fui aprovado no curso de cenografia e figurino, oferecido pela sp escola de teatro, coordenado pelo serroni. isso significou uma nova imersão, um novo processo. eu estava diante de novas questões, de sentimentos que simulavam voos de pássaros: por vezes mais baixos, mais altos, mas voando. alguém estava me transportando de um lugar para o outro, alguém estava me motivando àquele novo tipo de olhar.

***

quando eu entendi, ainda na faculdade de audiovisual, que cenografia era exatamente aquilo que eu queria fazer, eu dedici por respirar este tema todos os dias. e continua sendo. na avaliação para admissão à escola, eu disse isso. e tive vontade de chorar já no meu primeiro contato com o cara que seria mais tarde o meu formador. e eu, seu aprendiz. emocionante.

***

um ano já passou. a respiração continua sendo a mesma: e será. a gente, quando cresce, sabe que algumas coisas não mudam. falta mais um ano, só mais um, para que este contato, tão começo de, possa ser efetuado. para que eu não esqueça que este é um momento em que eu, tão passarinho, esteja em consonância exata com aquilo que penso das coisas. como alguém que está em cena, como alguém que deseja mais. como alguém que abraça o teatro e imediatamente tem seu cenário interno tranformado e então adquire um novo figurino.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

estender o tempo na imagem não significa apenas perpetuar o instante: pode ser também introduzir poesia em um pequeno pedaço de sonho; dar vazão ao que dura apenas 30 segundos.


lay, lady, lay (video, 2012)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

a gente sente saudade de muita coisa, eu e vocês sabemos.

pensei enquanto voltava pra casa sobre o meu processo artístico e foi tão difícil.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

não regue a minha esperança como você fez.
não existe tristeza maior no mundo do que constatar que duas pessoas podem desejar todos os dias coisas diferentes e que uma delas não está para o amor, para a virtude de um sentimento que pede um certo tipo de comportamento. não há.
e também não está nada errado em querer que outra pessoa siga feliz.
saber que será bem-vindo, que foi bem-vindo e que reside um medo tão febril dentro de si, palpitando, dizendo bem baixinho que é o fim do carnaval. que é chegada a hora de esquecer para não se machucar mais.
precisa ficar longe, precisa descansar, precisa repousar agarrado no travesseiro escuro que é a vontade

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"sua voz é a cor do idioma em um mundo novo."

sábado, 28 de janeiro de 2012

"hoje estou enjuriado", ele disse.

ai, heitor, te escrevo um carta.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

você talvez saiba, mas eu gosto de deixar anotado no cantinho do seu celular que seríamos ótimos juntos.
e que, para muito além disso, eu adoro o fato de que a gente sempre se encontra naquele dia especial pra mim. porque você tem alguma coisa que faz meu coração cantarolar "youhuhu" e então pedir para que você segure a minha mão enquanto a gente volte para casa, depois de tanto.
não sei, mas tem coisas que não se concretizam. e não precisa.
eu só tô pedindo para que você apareça de vez em quando e que não me surpreenda por mal. que construa as suas casas do jeito que quer. que peça para que eu decida a mesa na sua sala de jantar enquanto eu, ao meu modo, prepare alguma comida gostosa. toda estrela te segue. que nem cometa.

você é lindo demais. e sabe. e sorri. e eu fotografo, para guardar você em mim.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

para eu nunca esquecer.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

vai tudo bem sim, obrigado

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

"não há timidez no mundo que resista à passagem do tempo, piloto"

domingo, 15 de janeiro de 2012

a ferida da alegria,

é o meu novo vídeo. engraçado como o meu processo de criação parte de uma ideia dependente de algum objeto ou uma paisagem. desta vez eu me coloco diante da câmera, ainda que não tenha o rosto revelado. o importante, neste novo trabalho, é diagnosticar que tipo de ferida é essa numa paisagem completamente absurda.

esta semana a gente grava e edita, eu espero.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

de repente eu escutei ela chorando. e a minha vó, eu sei.
era aquela notícia que todos nós tínhamos tanto medo. mas sabíamos. todo mundo sabe quando alguém tá se afastando, quando alguém tá indo embora. é como se a gente pudesse enxergar ao redor da pessoa um monte de nuvens azuis e dois pares de anjinhos com cornetas.

a minha primeira notícia de 2012 é uma notícia de adeus. de alguém que se despede de alguém mais velho.
todas as minhas lágrimas e memórias hoje são para ele. para o meu avô.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

2012 acompanhado