quarta-feira, 2 de março de 2011

g.

a pessoa mais íntegra do mundo cujo sorriso se expande cada vez que cruza a avenida e desce a praça florida e colorida. precisa entender que a gente tem duas opções bem descritas na vida - aliás pouco se entende de escolhas - que são, todas as vezes que eu desço no metrô do brás, aquilo que a gente brincava de sobreviver e viver. perceba que pouco, um pedacinho de prefixo, é tão pouco mas é tão sigiloso: estou dizendo que a gente sempre sobreviveu. o nosso amor só sobreviveu. um artista que assim o faz é tão medíocre, mas tão... pode ser cruel o que eu direi, mas me parece de uma forma absoluta e sincera de convencimento. chega. viver. eu poderia repetir os sons dessa palavrinha toda. viver, gabriel. eu preciso viver mais. e isso significa que eu pedirei mais os meus dias. eu descerei de outras maneiras no brás, eu permitirei com que eu me perca. quando eu me vejo, daqui cinco anos, me imagino mais feliz. e você? com você. só você. vai. você sempre me pareceu tão passarinho, tão parecido com aquilo que eu queria dizer naquele dia em que me apareceu sozinho em casa com dois pedaços de bolo de café da feirinha de santo antônio. você lembra? você lembra tanto, lembra muito. inclusive dos meus deslizes de esquecimento, da minha maneira inconfundível de dizer te olhando através dos desenhos. eu fiz você anteontem. mas eu me esqueci, novamente, de onde aquela sardinha também inconfundível fica. tenho a impressão de que ela cresce todas as vezes que eu me esqueço e que, quando der os cinco anos, ela cobrirá todo o seu rosto e eu já não mais conseguirei te reproduzir nos papéis. te desenhar. como um livro bonito. como aquilo que eu imaginava.
eu sempre brincava que um dia, qualquer um desses, eu te mandaria uma mensagem naquele programa engraçado de rádio, apresentado por aquela voz de mulher, dizendo que não mais você estaria sozinho porque eu estava ali. eu não estou, gabriel. eu estou indo embora distante. e não, não é com você. é o meu recente e íntegro amor.
me perdoe a falsidade e a ausência total de respeito por escrever isso, mas ele tem um hábito tão bonito de querer. de querer me romever com tranquilidade de um túnel que é o esquecimento. ele me quer, e isso não é o bastante. ele escreve em um caderno confeccionado de tecidos, do brás, todas as minhas lembranças. até mesmo as nossas, quando eu peço. sim, eu tenho medo de esquecer você. e foi ele quem me lembrou de escrever esta carta. eu escrevo para que você me desenhe também.

amo você como se ama um passarinho morto. bonito, mas não é meu. é dele, como é mesmo o nome dele?

ele está me guiando no túnel e eu estou bem. sigo amando.
um beijo nosso,

carolina.