quarta-feira, 16 de março de 2011

julie, agosto, setembro

conceituar e estabelecer os parâmetros estéticos a que uma visualidade fílmica caminhará não é fácil. primeiro a gente lê o roteiro, depois a gente conversa com o diretor, com o fotógrafo. a gente esboça em desenhos, elabora uma curva cromática, os trajetos de coloração que o filme terá, a gente conversa muito com a gente mesmo, a gente busca na história da arte, no cotidiano, nas vivências, nos estudos... sempre há muitas opções, e todas elas, para que tudo fique afinado, sensível aos olhos. olhos são instrumentos importantes do cinema e também do projeto de direção de arte de um projeto audiovisual.
não há uma fórmula de ensino de cenografia. não que isso seja importante. as receitas podem cegar. e se a gente fala de olhos, a cegueira pode ser um inimigo, um fator que limita, que não deixa seguir adiante.
o importante é que tudo esteja sensível e que a equipe de direção de arte converse para depois estabelecer os diálogos com a fotografia e os demais departamentos.
na realização do julie, agosto, setembro que estreou esta semana em goiânia foi assim. embora dispuséssemos de pouco tempo para a concretização visual do roteiro, ou seja, para a etapa de gravação, sabíamos bem em que território estávamos pisando. o jarleo, diretor do filme, é aquele tipo de profissional que necessita de um tempo para a criação, que entende o personagem como quem dorme com ele todos os dias. mas sabe também se virar em pouco tempo, sabe o que quer, sabe pedir e também escutar. eu o conheci ainda na faculdade de audiovisual e ele acompanhou os meus primeiros estudos em direção de arte. sempre soube das minhas inquietações, de onde eu queria chegar. inclusive é dedicada a ele a minha pesquisa sobre o tema no trabalho de conclusão do curso.
no julie me deparei com um tempo mínimo para a produção dos figurinos do filme. tínhamos o vestido com motivos florais, figurino principal do filme, empréstimo de uma amiga figurinista de são paulo. o vestido estreou antes no julie do que no longa em que apareceu primeiro, conceituado enquanto imagem. os demais figurinos foram produzidos a partir de vivência, com as cores, com os amigos que, como a nossa mocinha, pertencem a esta goiânia, cidade quente e seca. o cenário da julie, minha casa. a casa que abrigou, inclusive, boas discussões sobre o segundo curta, o faltam duas quadras. e eric, o menino amor, o terceiro e quase infiel namorado, aquele que parte, nasceu de um sobrenome que o leo deu. um sobrenome de alguém, de alguém que aparece discretamente na página com as fotografias do rapaz. nós sabemos. e o nome, o eric, foi meu, quando o jarleo estava sentado na sala de casa finalizando o roteiro. a essa relação de parceira entre diretor/roteirista e diretor de arte e, mais importante aqui, de amigo para amigo, foi ficando cada vez mais claro como o filme seria.
gosto cada vez mais de assistir ao teaser e me deparar com uma situação surpresa, o instante em que julie e eric, posicionados em frente à câmera, ouvimos que em sua vida, na vida de julie, tudo mudou. inclusive o vestido. agora, o brinco único em formato de passarinho cor-de-rosa, e o vestido de alcinhas que revela um pouquinho mais do corpo da carol (um empréstimo belíssimo à romântica julie) salienta ainda mais esta goiânia quente.
me surpreendo com o jarleo a cada instante. estava com uma mala com mais de dez figurinos andando com emerson, diretor de fotografia, no centro de goiânia, quando ele resolve parar e assumir uma câmera que simula o olhar dela: sem foco, quase foco, focado. tudo tão rápido, tudo tão rápido, o olhar de alguém que sabe o que quer.

o julie é um presente para a direção de arte. um presente para figurino. um presente de amigo.
um presente de um amigo que eu gosto de receber em casa. em qualquer casa.

vida longa ao julie, vida longa à poesia. vida longa ao cinema que é produzido em goiás.

quarta-feira, 2 de março de 2011

e fez com que a presença dele estive assinada na lista que a secretária deixara ali. mas era mentira. ela até fez dupla com ele no exercício de história. abriu o livro e fingiu que ele estava ali. mas ele estava, oras. ela conseguia imaginar o que ele escreveria sobre a república. sobre toda aquela parafernália que a encardia.
eram os dois. e também todos os outros mortos do livro de história.
g.

a pessoa mais íntegra do mundo cujo sorriso se expande cada vez que cruza a avenida e desce a praça florida e colorida. precisa entender que a gente tem duas opções bem descritas na vida - aliás pouco se entende de escolhas - que são, todas as vezes que eu desço no metrô do brás, aquilo que a gente brincava de sobreviver e viver. perceba que pouco, um pedacinho de prefixo, é tão pouco mas é tão sigiloso: estou dizendo que a gente sempre sobreviveu. o nosso amor só sobreviveu. um artista que assim o faz é tão medíocre, mas tão... pode ser cruel o que eu direi, mas me parece de uma forma absoluta e sincera de convencimento. chega. viver. eu poderia repetir os sons dessa palavrinha toda. viver, gabriel. eu preciso viver mais. e isso significa que eu pedirei mais os meus dias. eu descerei de outras maneiras no brás, eu permitirei com que eu me perca. quando eu me vejo, daqui cinco anos, me imagino mais feliz. e você? com você. só você. vai. você sempre me pareceu tão passarinho, tão parecido com aquilo que eu queria dizer naquele dia em que me apareceu sozinho em casa com dois pedaços de bolo de café da feirinha de santo antônio. você lembra? você lembra tanto, lembra muito. inclusive dos meus deslizes de esquecimento, da minha maneira inconfundível de dizer te olhando através dos desenhos. eu fiz você anteontem. mas eu me esqueci, novamente, de onde aquela sardinha também inconfundível fica. tenho a impressão de que ela cresce todas as vezes que eu me esqueço e que, quando der os cinco anos, ela cobrirá todo o seu rosto e eu já não mais conseguirei te reproduzir nos papéis. te desenhar. como um livro bonito. como aquilo que eu imaginava.
eu sempre brincava que um dia, qualquer um desses, eu te mandaria uma mensagem naquele programa engraçado de rádio, apresentado por aquela voz de mulher, dizendo que não mais você estaria sozinho porque eu estava ali. eu não estou, gabriel. eu estou indo embora distante. e não, não é com você. é o meu recente e íntegro amor.
me perdoe a falsidade e a ausência total de respeito por escrever isso, mas ele tem um hábito tão bonito de querer. de querer me romever com tranquilidade de um túnel que é o esquecimento. ele me quer, e isso não é o bastante. ele escreve em um caderno confeccionado de tecidos, do brás, todas as minhas lembranças. até mesmo as nossas, quando eu peço. sim, eu tenho medo de esquecer você. e foi ele quem me lembrou de escrever esta carta. eu escrevo para que você me desenhe também.

amo você como se ama um passarinho morto. bonito, mas não é meu. é dele, como é mesmo o nome dele?

ele está me guiando no túnel e eu estou bem. sigo amando.
um beijo nosso,

carolina.
as proporções de desenho
do olho, da boca, da canção
prosperam à beira de uma semiótica
que a qualquer momento
ele disse
qualquer momento
podem atormentar o segue
vai, adiante, para que
olho, boca, canção
castiguem o final do poema