quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

sobre caber, permanecer e o amor

de repente eu entendi que precisava contar uma história. foi de repente mesmo. eu já estava acostumado a contar as histórias de outras pessoas, outros amigos, sempre na posição de diretor de arte e figurinista. e então escrever o “eu já não caibo mais aqui” foi entender que ali, naquele momento, eu precisava contar o meu personagem. não eu, mas também eu.
todo o projeto possui uma referência direta com a obra do artista holandês ban jan ader, principalmente o i'm too sad to tell you, realizado em 1971. eu estudei a obra deste artista para o desenvolvimento da minha pesquisa de graduação em direção de arte, na etapa de elementos que implicam a necessidade de um projeto de direção de arte para filmes. (...) o mês de março foi bastante difícil para mim e eu sabia que se não me propusesse a realizar alguma atividade audiovisual, ou em artes plásticas, poderia adoecer, como todo bom aquariano. mas poderia adoecer de amor. mas poderia adoecer para amar. mas poderia realizar para o amor. decidir a terceira opção me pareceu a mais difícil das tarefas, pois costumo ser exigente nas minhas imagens, principalmente quando elas discursam sobre o amor. minha experiência em cenografia permitiu marcar o instante da sacralização da solidão, uma espécie de momento só seu, que também era meu.
e caíram como uma luva as músicas do álbum “qualquer” do magnífico arnaldo antunes, principalmente a diegese participativa de “acabou chorare”, “2 perdidos” e “da aurora até o luar”. juntei com observações que me ocorriam sempre que escutava o álbum “the flying club cup” da banda beirut, nas músicas “the penalty” e “cherbourg”. com as referências estéticas bem claras, conversei com alguns dos meus amigos e então eles toparam. meus amigos sempre estão por perto e isso me alegra. (...)
o crítico de cinema cid nader parece ter entendido muito do curta quando aponta que os elementos inanimados (bolas de sabão, os balões, cigarro, liquidificador, etc) cumprem com sua função de narradores. os objetos parecem invadir os espaços, a decisão tomada foi a de que os quadros estariam bem marcados por tais elementos. (...)
os ambientes mudam de coloração. os objetos foram escolhidos em um processo muito particular em que eu posicionei uma caixa no meio da sala do meu apartamento e fui preenchendo com delicadeza, seguindo as ordens de obviedade de um dressing-fino. coloquei, em todas as cenas, folhas de celofane em frente à lente para que a imagem não tivesse esse apelo realista.
eu já não caibo... sinaliza uma teoria que carrego mesmo depois de entender que a gente precisa estar aqui, todo tempo, que é a de que ideias são menores que os encontros. o amor nunca deve ser tratado como desculpa para as relações sociais, mas a gente nunca erra quando fala de amor. nunca. e eu amo o eu já não caibo mais aqui assim como amo a direção de arte. as ideias são importantes, mas elas acontecem e aí... ah, e aí elas vão. eu encontrei muitas pessoas com o curta e fui encontrado. por mim, por elas, por todos nós que não cabemos em lugar algum.

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* texto lido por rodrigo cássio na sessão de curtas convidados do cineclube cascavel. goiânia, terça, 15, fevereiro.