terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

pintei a parede da sala de verde e desbotei todas as janelas e portas, azul-fino. voltei, ainda de madrugada, e desenhei todos nós juntos na sacada ladeado por flores e restinhos de tinta e cimento.
preciso me lembrar sempre (ou então ele me avisa) que todo fim tem um começo de dor. e nada, nada mesmo, parece ser próximo do fim.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

rasgue toda a conclusão que surgir a cada final de capítulo de um livro bonito ou feio rrrrrasgue ttttoda a minhhhha conclussssão que sugerirrrrr por retrocessso
rretire a página que perrrsistir no idioma errrado
fiz um pequeno rascunho do que poderia acontecer caso recebesse aquele meu embrulho contendo alguns presentes. mas presente, de agora, ninguém mais entende.
poderia receber a minha insatisfação ou então o meu sentimento. mas não, estou de malas prontas e, acredite, eu não sei nem por onde começar.
mais de uma semana ou um fim de semana podem ser tanto.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

adoro quando você diz, toda risonha, que me entende. e adoro ainda mais quando você não suporta o fantástico da rede globo e cai no sono, ainda no sofá. você me disse uma vez "ah, faz lá um livro bonito" e eu entendo que talvez ele peça para acabar, como quando você, de voz mole, aperta o botão do interfone e diz em tom seguro "cheguei, filhote".
ai mãe, se segura bonita aí porque eu sou um barquinho pequeno. e você é o meu porto seguro. cheio de razão.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

querido,

aqui está tudo redondinho. você deve estar rindo mais por conta do "querido" do que pelo "redondinho". eu sei, não é cabível, mas não há nada melhor para exemplificar essa fase, esse fim de fase. coisas sem arestas que sabem deslizar pelo espaço são encantadoras. e elas não param! lembra daquele vaso de porcelana da minha mãe? imagine ele descendo uma cordilheira, assim. assim.
pois me sinto dessa maneira. e é maneiro saber que em breve eu terei condições mais bonitas de poder dizer isso melhor. você sabe que se eu as tivesse agora, é provável que eu não as domesticasse. você sabe que eu não vivo sem aquele presente de aniversário, aquele livro tão bonito que em breve não existirá. você sabe que eu posso voltar quando eu quiser, você sabe que eu sou esquecido e que reclamo dos projetos para os próximos anos.
mas hoje tem eu e eu até às 2h da manhã. e tem aquela nossa samambaia na porta de entrada do apartamento. e tem o espelho torto do banheiro.

por amar,

m.
por um momento ele parou. sentou-se na cadeira da cozinha. ficou tocando o pano que cobria o bolo do café-da-manhã. "qual é mesmo o signo dela?". pois aí pensou em todos eles e não conseguia lembrar-se de nada. duas horas depois. nem do rosto dela. nem de como ela deixava uma mensagem de celular. esqueceu e odiou o mundo para sempre.
e odiar o mundo significava odiar tudo o que havia dentro dele.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

vê se ajuda a colorir esse amor
pois toda a minha herança
não encontrou um marulho
que é a parte em que você
me diz
"eu te amo sem pressa"
mas eu já estou pronto
bagatela de barulho.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

desista.

g.

inicio este recado afirmando que você não sabe ainda o que significa perto e longe. olha, pedir para que eu te espere enquanto você termina os desenhos para a aula de história da arte é demasiadamente penoso pois os seus rabiscos, que não são lá grande coisa, são lentos, minuciosos, portanto, caminham feito tartaruga.
implorar por uma redação bonita, com a caligrafia bem elaborada, também é um erro. quando a gente falava sobre o que haveria de ser, juntando 2% ou 5% a mais na média de erro, você nunca me disse que poderia se apaixonar por outra pessoa, nunca me disse ainda que negaria essa geografia errada ou então a minha maneira exagerada em acreditar que a gente sempre pode se apaixonar pela mesma pessoa todos os dias. só que isso é mentira, a tendência, na maioria dos relacionamentos, é de que se canse de que todos os assuntos - arte, cultura, política, literatura e música - pois foram debatidos às 3h da madrugada.
mas vejo você chegando em casa, dizendo um "oi" doce aos demais, enquanto eu permaneço quieto dentro do quarto. digo que vou sair e você vem atrás só para propor um acordo de bons modos, que, por sinal, é precário. por isso eu te peço, não estou disponível na segunda, tampouco nos finais de semana. você me levava a acreditar que eu poderia me doar todos os dias, como quando você aparecia com sorvete em casa, ou quando "parece que chegou aquele livro que você tanto queria comprar na livraria aqui ao lado". mentira, eu nunca quis aquele livro, só queria que você descesse para eu não ter que apertar a merda do interfone para você.
confesso que posso me sentir mal o bastante por não ter o seu sexo, na cama com cobertor amarelo. veja bem, ele nem era lá essas coisas. não era mesmo. dia desses eu encontrei um conhecido e ele usou o travesseiro que você tanto gostava, aquele dos quadradinhos coloridos, em azul, verde e vermelho, para me amar. amar não, para me tocar devagar. e eu pedia mais, mais.
você pode continuar falando em nome do tempo, você pode continuar agindo como se isso fosse apenas uma fase, na televisão corresponderia ao tempo dos comerciais. acontece que três minutos sempre foram importantes para nós, mas agora não são. posso ter 30 com outras pessoas, 3 horas ou 3 meses. ainda que eu observe o quanto você pode ser mesquinho em tuas decisões, eu acredito que faz bem. sabe que poderia me magoar e eu, para sempre, não te perdoaria. do tamanho que esse mundo é, ou mesmo esta cidade, te encontrar representaria uma falsa parede de vidro. mas contenha, amor, encontros podem ser decisivos, podem ser enfadonhos e podem ser trágicos. quero antes recordar que você sonhava - engraçado que ocorria toda quinta-feira - que me via atravessar a ponte do setor leste, e me telefonava de madrugada "estou indo para a sua casa". duas ou três vezes eu quis dizer um "não, não venha aqui". "me deixa" não me pareceu justo, a entender a maneira como você suspirava quando realizava exames nas pessoas doentes da faculdade de medicina. contenha a sua mania de grandeza, de bom pisciano. faça como o eu-lírico disse à paula: se me encontrar na rua, ou mesmo nos teus sonhos, diga em alto e bom tom "não conheço esta pessoa". e ainda, para a conclusão do segundo clímax, desapareça de vez com aquela pasta de raios-x que você deixou aqui. pegue as tuas roupas, o perfume horrível que você comprou nos estados unidos e aquele ingresso medíocre daquele também medíocre show. desista, essa sua fome de que o futuro está aí é a maior bobagem que já li desde aquela sua carta de amor.

c.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

fevereiro