sábado, 7 de novembro de 2009

eu não diria que a videoarte "eu já não caibo mais aqui" possui uma referência direta com a obra do artista ban jan ader. na verdade, assim como luiz fernando carvalho propõe para capitu em relação à obra de machado de assis, parte de uma relação de aproximação com os temas que são recorrentes em sua produção, como a solidão e o desafio.

março foi um mês bastante difícil e eu sabia que se não me propusesse a realizar alguma atividade audiovisual, ou mesmo em artes plásticas, eu poderia adoecer, como todo bom fraco aquariano. mas poderia adoecer de amor. mas poderia adoecer para amar. mas poderia realizar para o amor. decidir a terceira opção me pareceu a mais difícil das tarefas, já que costumo ser exigente nas minhas imagens, principalmente quando elas versam sobre o amor.

pensei em falar com a lidi a respeito do projeto que ainda não tinha um roteiro bem acabado. a lidi me daria algumas referências, pessoais e não visuais, sobre como o garoto da história agiria frente à solidão. mas não deu. não me lembro o motivo, só sei que tem horas que a gente precisa falar, dizer como quer as coisas, argumentar em sentido de construir algo mais sensível, mas não deu mesmo.

a cenografia me permitiu marcar o instante da sacralização da solidão, uma espécie de momento só seu, que também era meu. lembro de um dia ter acordado no meio da noite. tinha só um cigarro e uma garrafa de cerveja que minha mãe deixara em sua última visita. eu pensei, quando sentei-me aos prantos no sofá: "tem lugar mais não pra caber tanta desolação". e caiu como uma luva as músicas do álbum "qualquer" do arnaldo antunes. principalmente a diegese participativa de "acabou chorare", "2 perdidos" e "da aurora até o luar". juntei com observações que me ocorriam sempre que escutava o álbum "the flying club cup" do beirut, nas músicas "the penalty" e "cherbourg".

então a idéia de uma possível "and a fall from you / is a long way down", conseqüente liberdade temática para a construção do roteiro simples estava praticamente terminada. outro dia, acreditando nesse término da elaboração do argumento, meu irmão me ouviu chorar dentro do quarto e, por receio, acredito, preferiu não se aproximar ou perguntar o que estava acontecendo. aquilo me marcara bastante e percebi o quanto eu estava distanciando os meus sentimentos dos meus amigos, principalmente daquele que compartilha a mesma "cenografia" que eu. decidi que o roteiro deveria ficar pronto em uma semana.

a primeira história foi compartilhada com o osvaldo e a renata. eles gostaram quando lhes contei no refeitório da faculdade, embora no fundo no fundo sabiam que eu mudaria o curso da diegese, principalmente o papel desempenhado pelas estruturas do espaço para a moldagem do personagem. não poderia ser uma videoarte em um espaço que não me fosse próprio, parecia que ela me dizia isso. a mudança mais radical dessa história de solidão e saudade aconteceu próxima à vontade de gravar. acho que uma semana antes.

o jr., ao ler o o roteiro novo, soube entender com facilidade como aquele menino deveria se vestir. no começo eu também faria o figurino. a direção, o roteiro, a direção de arte e o figurino. tive uma conversa séria com ele três dias antes de gravarmos em casa e percebi que não poderia confiar toda a visualidade da personagem em mim. não deveria ser um tutorial sobre como eu imagino que as coisas são. eu entendi que ele poderia fazer o figurino naquele momento e entreguei as minhas sugestões, que eram várias, para as cenas, que mudavam acompanhando as alterações dos ambientes (sala, espécie de escritório/biblioteca, quarto, banheiro e cozinha).
o leo faria a música para a videoarte, mas lembro que tudo se atropelou e isso não foi possível. acabei optando, um pouco triste, por uma música da mallu magalhães, na verdade por um trecho instrumental de "sualk". intervenções no ritmo e melodia também aconteceram. na próxima videoarte a música original é do leo, que tanto me entende bem.

o kai foi doce quando contei a história. me surpreendeu ao topar as cenas que pediam um personagem nu dentro do banheiro. na hora de gravar a cena, titubeou, mas fez. e ficou bonito no vídeo cujo objetivo era acelerar os fragmentos de um possível filme que não poderia ser entendido isoladamente, mas com a presença da personagem, feita pelo kai. a larissa fez o still, o meu irmão se enfiou na produção com o jr., responsável também pelo figurino, o rodrigo também deu uma força, o osvaldo foi meu assistente e a renata fez a fotografia. então esperei a aline retornar meu email, completamente sensível, para que me desse uma força na montagem e finalização.

a espera pela aline e o esfriamento da mini-dv dentro de uma latinha antiga de costura, presente da minha avó, foram importantíssimos para que eu rompesse com todo o ideário daquelas circunstâncias da fase de criação. viajei para são paulo no fim de junho e, dentro de um ônibus em campinas, quando retornava para a casa do rafa, notei que a chuva forte cortava alguns pedaços da grama do chão. pode parecer bobagem, mas foi decisivo para a opção de uma montagem toda cortada, um jump-cut. os gestuais da personagem necessitavam ser bifurcados para todo o clima de insatisfação do vídeo. se tivesse chovido em goiânia durante as gravações, talvez a equipe toda entenderia do que estou descrevendo. quando voltei para casa, no primeiro dia depois da viagem, pensei em incluir novas cenas, em razão da experiência do deslocamento. mas a voz do arnaldo veio arrebatadora com "acabou chorare, faz zum-zum pra eu ver" instaurando a possibilidade de cada imagem por sua vez em cada instante sacralizado.

sobre outra volta: com o vídeo dentro da mochila, após a edição carinhosa na casa da aline, junto com osvaldo, eu tive aquela vontade de chorar e sorrir que acontece quando a gente recolhe dentro de uma caixa algumas fotografias antigas.

pois então chegou a hora de mostrar a todos esse trabalho simples, porque precisava ser simples, e de coração.

"eu já não caibo mais aqui", exp., 4min. mostra competitiva universitária do 5o festcine goiânia. sexta, 13, 19h30.

para todos nós que não cabemos em lugar nenhum.