sábado, 28 de novembro de 2009

e lá vai mais
um bordado
que tem todo o cuidado
das folhinhas
que caem nessa estação

para que
se sinta bem amado
não é necessário,
entenda,
um laço bem apertado
ele não poderia com uma história tão cheia de segredos, não poderia com ele que ficava ali, sempre lembrando os seus piores defeitos.
preparou uma coleção de adesivos do picasso, juntou tudo dentro de uma mala, com quadros, algumas camisetas amarelas, cuecas, roupa de cama e um travesseiro. fez com que foi embora, não olhou mais para ele, quis saber de toda a história, mais um pouco, me conte mais, mas por que?, você ainda me ama, eu sinto dor por tudo, amor descomedido, você fez tudo tão errado, cabelos molhados, dor de garganta, ele deve estar feliz, eu não, você sim, estou voltando para casa, pois agora eu faço entender.
e disse, próximo ao ponto de ônibus para o centro, que desejava nunca mais vê-lo. disse que com sua ingenuidade amadurecida, poderia retornar. ou esperava que ele dissesse que não, pedisse para ficar, que poderia ficar tudo bem, só que sem amor.
chorou todos os dias. chorou até o fim do ano. regressou para a sala de sofá e lembrou-se da história maldita daquela noite de amor. não queria ser poupado. sofreria, mas cheio de verdade.
abraçou a luz da escada, observou o enfeite de natal na porta do vizinho e entendeu que o fim do ano estava próximo, em breve teria um 2011. olha só! falta pouco para mais um de seu ano. falta pouco para tudo passar.
deitou-se na cama, um barulho descomplicado da rua, assoprou a vela do bolo que preparou sozinho e telefonou para o outro. "eu não posso mais ser feliz, você deve imaginar". mas acontece que ele me ama, você já devia saber. então, sem alternativa, fumou dois cigarros, desceu a rua 05 e voltou para o longe.
esperou encontrá-lo no grande prédio de azulejos, com detalhes em madeira escura, e lhe contou toda história. ele achou tudo muito bonito. achou que fez errado, mas que fez certo, um dia. abraço. meio-beijo. devolve as coisas. uma bagunçada no cabelo. a concentração da disciplina. sozinho de novo.
e sorriu para mim depois de perguntar se eu amava alguém. "sim". mas é um amor sem jeito, de puro choro. ai, você precisa tanto de proteção. me diz se ele está aqui.
então ele deu meia volta e tratou de lhe contar parte da história.
voltou para o começo da história, um sorriso. voltou para o fim da história, meio sorriso. e o outro entendeu que não poderia com um beijo, só abraço de consolação.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

eu não sei mesmo o que tá acontecendo. não agora. não amanhã.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

"eu pretendia estar deitado ao seu lado esta noite."
"você está."
e me abraça com um querer de fim de noite
e me olha com um sorriso de fim de noite
e então se vira para que eu caiba melhor
dentro da minha pretensão.

sábado, 21 de novembro de 2009

o jeito como se questiona
faz com que o meu querer
grite abafado

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

quanto tempo demora
para o sol aterrissar aqui ao lado?
eu fico de olhos abertos (mas eles secam)
só para poder viver todo o tempo
recusar convites
e ser fotografado pelo meu amor.
todo sol tem gosto de descanso
e tem gosto de tempestade para poder secar
(como uma esponja)
a maneira como me olha, em sobressalto, e sorri
e eu peço para ir embora
para que eu fique de olhos abertos
e sozinho

não poder dividir o sol com ninguém
ficar brilhando à luz do pensamento
e recusar o convite

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

pode ser que eu tenha um bocado de mágoas dentro de mim e que isso se torne suficiente para eu me lembrar
do quanto
o menino aparentemente virá com seu jeans surrado e abrirá um sorriso desencantado.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

"se ele entendesse o que me fez sentir
tão sozinho
e como isso pode repercutir dentro de mim
tão calado
não estamparia na estante uma medalha
não pegaria mais nenhum livro na biblioteca
ficaria ao meu lado
para que eu cochilasse até as marchinhas
do ano que vem
tan-dan-tchun-tan-dan-tchun"

domingo, 15 de novembro de 2009

o picasso desenhou coração humano quadrado?
o meu é só uma bolinha vermelha discreta, no desenho.
"recebi o recado mais delicado dia desses.
então eu respondi, só que indelicado.
mas ele entendeu que delicado pode ser de duas maneiras.
e fui indelicado para outro indivíduo
porque nós dois sempre sabemos
o que queremos
e nos olhamos para sorrir de amor.
cada um com o seu
e o nosso
que poderia ser."
quando ela dançou para o espelho
ele sorriu
porque ela foi a imagem mais bonita
que ele já mostrou
para o ar

ela só queria o espelho
para pentear os cabelos
porque se ele tivesse mãos
se encobriria de fios
para mostrar para o ar
que ela
também era dele


(para o querido).
ela é tão custosa que fica acordando o irmão enquanto ele precisa dormir. mas sim, ela precisa lhe contar das dores do peito, de como vai ser adiante.
sinto dores fortes perto do peito.

(...)
a gente desvenda uma porção de histórias
conta que para lá não é lugar de chegada
mas eis que surge uma desatenção
a gente se encontra para dizer não

para que tudo ocorra bem quando você for
será organizado um cantinho azul
para que nos momentos de sentir solidão
não bata na porta do outro para ouvir um não
se ela não amasse outro homem, amaria você. pode ser até que você tenha outra pessoa ao seu lado, ela não importa. o outro, o que ela ama mesmo, também tem. mas vai chegar um dia que vocês vão se encontrar na porta de alguma apresentação musical ou peça de teatro e você, o segundo amor, entenderá que não se trata de uma segunda opção. ela só precisa ser fiel quando ama alguém que não a ama. ela entende também que a pior maneira de traição é aquela acompanhada de amor. ela amaria você, por você e por tudo isso.

sábado, 7 de novembro de 2009

eu não diria que a videoarte "eu já não caibo mais aqui" possui uma referência direta com a obra do artista ban jan ader. na verdade, assim como luiz fernando carvalho propõe para capitu em relação à obra de machado de assis, parte de uma relação de aproximação com os temas que são recorrentes em sua produção, como a solidão e o desafio.

março foi um mês bastante difícil e eu sabia que se não me propusesse a realizar alguma atividade audiovisual, ou mesmo em artes plásticas, eu poderia adoecer, como todo bom fraco aquariano. mas poderia adoecer de amor. mas poderia adoecer para amar. mas poderia realizar para o amor. decidir a terceira opção me pareceu a mais difícil das tarefas, já que costumo ser exigente nas minhas imagens, principalmente quando elas versam sobre o amor.

pensei em falar com a lidi a respeito do projeto que ainda não tinha um roteiro bem acabado. a lidi me daria algumas referências, pessoais e não visuais, sobre como o garoto da história agiria frente à solidão. mas não deu. não me lembro o motivo, só sei que tem horas que a gente precisa falar, dizer como quer as coisas, argumentar em sentido de construir algo mais sensível, mas não deu mesmo.

a cenografia me permitiu marcar o instante da sacralização da solidão, uma espécie de momento só seu, que também era meu. lembro de um dia ter acordado no meio da noite. tinha só um cigarro e uma garrafa de cerveja que minha mãe deixara em sua última visita. eu pensei, quando sentei-me aos prantos no sofá: "tem lugar mais não pra caber tanta desolação". e caiu como uma luva as músicas do álbum "qualquer" do arnaldo antunes. principalmente a diegese participativa de "acabou chorare", "2 perdidos" e "da aurora até o luar". juntei com observações que me ocorriam sempre que escutava o álbum "the flying club cup" do beirut, nas músicas "the penalty" e "cherbourg".

então a idéia de uma possível "and a fall from you / is a long way down", conseqüente liberdade temática para a construção do roteiro simples estava praticamente terminada. outro dia, acreditando nesse término da elaboração do argumento, meu irmão me ouviu chorar dentro do quarto e, por receio, acredito, preferiu não se aproximar ou perguntar o que estava acontecendo. aquilo me marcara bastante e percebi o quanto eu estava distanciando os meus sentimentos dos meus amigos, principalmente daquele que compartilha a mesma "cenografia" que eu. decidi que o roteiro deveria ficar pronto em uma semana.

a primeira história foi compartilhada com o osvaldo e a renata. eles gostaram quando lhes contei no refeitório da faculdade, embora no fundo no fundo sabiam que eu mudaria o curso da diegese, principalmente o papel desempenhado pelas estruturas do espaço para a moldagem do personagem. não poderia ser uma videoarte em um espaço que não me fosse próprio, parecia que ela me dizia isso. a mudança mais radical dessa história de solidão e saudade aconteceu próxima à vontade de gravar. acho que uma semana antes.

o jr., ao ler o o roteiro novo, soube entender com facilidade como aquele menino deveria se vestir. no começo eu também faria o figurino. a direção, o roteiro, a direção de arte e o figurino. tive uma conversa séria com ele três dias antes de gravarmos em casa e percebi que não poderia confiar toda a visualidade da personagem em mim. não deveria ser um tutorial sobre como eu imagino que as coisas são. eu entendi que ele poderia fazer o figurino naquele momento e entreguei as minhas sugestões, que eram várias, para as cenas, que mudavam acompanhando as alterações dos ambientes (sala, espécie de escritório/biblioteca, quarto, banheiro e cozinha).
o leo faria a música para a videoarte, mas lembro que tudo se atropelou e isso não foi possível. acabei optando, um pouco triste, por uma música da mallu magalhães, na verdade por um trecho instrumental de "sualk". intervenções no ritmo e melodia também aconteceram. na próxima videoarte a música original é do leo, que tanto me entende bem.

o kai foi doce quando contei a história. me surpreendeu ao topar as cenas que pediam um personagem nu dentro do banheiro. na hora de gravar a cena, titubeou, mas fez. e ficou bonito no vídeo cujo objetivo era acelerar os fragmentos de um possível filme que não poderia ser entendido isoladamente, mas com a presença da personagem, feita pelo kai. a larissa fez o still, o meu irmão se enfiou na produção com o jr., responsável também pelo figurino, o rodrigo também deu uma força, o osvaldo foi meu assistente e a renata fez a fotografia. então esperei a aline retornar meu email, completamente sensível, para que me desse uma força na montagem e finalização.

a espera pela aline e o esfriamento da mini-dv dentro de uma latinha antiga de costura, presente da minha avó, foram importantíssimos para que eu rompesse com todo o ideário daquelas circunstâncias da fase de criação. viajei para são paulo no fim de junho e, dentro de um ônibus em campinas, quando retornava para a casa do rafa, notei que a chuva forte cortava alguns pedaços da grama do chão. pode parecer bobagem, mas foi decisivo para a opção de uma montagem toda cortada, um jump-cut. os gestuais da personagem necessitavam ser bifurcados para todo o clima de insatisfação do vídeo. se tivesse chovido em goiânia durante as gravações, talvez a equipe toda entenderia do que estou descrevendo. quando voltei para casa, no primeiro dia depois da viagem, pensei em incluir novas cenas, em razão da experiência do deslocamento. mas a voz do arnaldo veio arrebatadora com "acabou chorare, faz zum-zum pra eu ver" instaurando a possibilidade de cada imagem por sua vez em cada instante sacralizado.

sobre outra volta: com o vídeo dentro da mochila, após a edição carinhosa na casa da aline, junto com osvaldo, eu tive aquela vontade de chorar e sorrir que acontece quando a gente recolhe dentro de uma caixa algumas fotografias antigas.

pois então chegou a hora de mostrar a todos esse trabalho simples, porque precisava ser simples, e de coração.

"eu já não caibo mais aqui", exp., 4min. mostra competitiva universitária do 5o festcine goiânia. sexta, 13, 19h30.

para todos nós que não cabemos em lugar nenhum.
"olhos de cigana dissimulada"

porque nem oblíquo já é mais.
existe uma fronteira não muito agradável
entre o começo real e o começo do que está por vir
se eu te desse um abraço
você apenas diria que não é suficiente

as lágrimas podem não acabar
se você diz não se emocionar
quando eu te der um abraço

existe um pequeno lenço perfumado
entre a despedida de ontem e o sol da janela de agora
se eu te desse um motivo
você apenas diria que não é necessário

posso optar por ficar
se você diz não se importar
quando eu te der além do meu abraço
se ele ainda não respondeu deve ser porque já não importa mais com as nossas imagens.