domingo, 25 de outubro de 2009

era quase três horas da manhã. a chuva batia bem devagar a janela da alcova do cozinheiro e a vela estava quase consumida. a luz monótona, prestes a extinguir-se, permitiu com que eu notasse, à claridade dos raios de luz perene, uma sombra que retornava silenciosa pela álea a vizinhança. de início, procurei fingir que nada estava acontecendo. tinha o rio que dividia comigo a angústia enquanto a chuva ameaçava as choças à direita da margem e tinha também seis ou oito pessoas que admiravam-se com a quantidade de água do céu, protegidos por guarda-chuvas.
a varanda estava demasiadamente escura para que eu pudesse distinguir com minha atrevida miopia algum vulto. o céu nesses dias nem parecia notar que mais negros eram os olhos daquele homem que esboçava uma poesia no pequeno estabelecimento comercial, próximo ao sítio em que mamãe educou uma família de oito filhos, não notou. a voz perene e desafinada, que insistia na poesia torta, não se cansava de fazer o pai e o filho.
como alguém poderia suportar a tempestade para fazer poesias em voz alta? posso assegurar que meu medo aumentava a cada verso seu, no entanto, recolhido, obrigava a mudança das mãos pequenas, dirigia os dedos para o céu que não me respondia nada, fazia de conta que esperaria, tinha que ter fim.
a poesia do homem na esquina virava-me as costas no momento em que o rio levava para casa o alimento de duas famílias. o homem estaria fingindo que nada acontecia ou era só meio par de sorriso disfarçado para as moças que observavam pela janela? que voz fraca para dissimular lirismo, quanta fragilidade para essa gente.
percebi, ainda em meu quarto, que o homem morreria em pouco tempo. o coração apertado, a margem do rio poderia despencar e por mais que eu pensasse em sair de casa, não o faria. ele precisava morrer afogado. as mãos cheias de areia, o rosto cheio de areia.
mais uma vez, olhei para céu nebuloso através da janela. era a vida acontecendo pela primeira vez. ele não estava mais perto do rio. a chuva cessaria gradualmente.
de toda aquela terra molhada brotaria uma árvore robusta com seu tronco avermelhado que sossega o peito com as folhas e fareja em decassílabo todos os quartos de gente em solidão.