quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"cada vez que ouço você chorar eu me sinto mais devagar. pode ser que tudo acabe quando o ano terminar, pode ser que você use sua inocência como desculpa para seguir sozinho. a gente se ama e isso é coisa de grandes amores."

para eles.

vão te convidar para o canto da rua
e você vai fingir desatenção
porque nunca soube, não
fazer a tarde desfalecer

(cenário 03, que é o cenário do osvaldo.)

terça-feira, 27 de outubro de 2009


vão procurar no seu armário
aquela carta do começo do mês
para que o destinatário
se engane outra vez

(cenário 02, que é o cenário da larissa.)

vão ouvir o barulho do quarto
se vocês não forem dormir logo
é que aqui do lado
tem outras meninas de coração apertado

(cenário 01, que é o cenário da lidi e susana.)

domingo, 25 de outubro de 2009

vegetais, desculpe, mas eu adoro ser ser-humano.
ele está tão sozinho que não vai ao mercado
desde dezembro do ano passado.
era quase três horas da manhã. a chuva batia bem devagar a janela da alcova do cozinheiro e a vela estava quase consumida. a luz monótona, prestes a extinguir-se, permitiu com que eu notasse, à claridade dos raios de luz perene, uma sombra que retornava silenciosa pela álea a vizinhança. de início, procurei fingir que nada estava acontecendo. tinha o rio que dividia comigo a angústia enquanto a chuva ameaçava as choças à direita da margem e tinha também seis ou oito pessoas que admiravam-se com a quantidade de água do céu, protegidos por guarda-chuvas.
a varanda estava demasiadamente escura para que eu pudesse distinguir com minha atrevida miopia algum vulto. o céu nesses dias nem parecia notar que mais negros eram os olhos daquele homem que esboçava uma poesia no pequeno estabelecimento comercial, próximo ao sítio em que mamãe educou uma família de oito filhos, não notou. a voz perene e desafinada, que insistia na poesia torta, não se cansava de fazer o pai e o filho.
como alguém poderia suportar a tempestade para fazer poesias em voz alta? posso assegurar que meu medo aumentava a cada verso seu, no entanto, recolhido, obrigava a mudança das mãos pequenas, dirigia os dedos para o céu que não me respondia nada, fazia de conta que esperaria, tinha que ter fim.
a poesia do homem na esquina virava-me as costas no momento em que o rio levava para casa o alimento de duas famílias. o homem estaria fingindo que nada acontecia ou era só meio par de sorriso disfarçado para as moças que observavam pela janela? que voz fraca para dissimular lirismo, quanta fragilidade para essa gente.
percebi, ainda em meu quarto, que o homem morreria em pouco tempo. o coração apertado, a margem do rio poderia despencar e por mais que eu pensasse em sair de casa, não o faria. ele precisava morrer afogado. as mãos cheias de areia, o rosto cheio de areia.
mais uma vez, olhei para céu nebuloso através da janela. era a vida acontecendo pela primeira vez. ele não estava mais perto do rio. a chuva cessaria gradualmente.
de toda aquela terra molhada brotaria uma árvore robusta com seu tronco avermelhado que sossega o peito com as folhas e fareja em decassílabo todos os quartos de gente em solidão.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

a.

pictórico pode ser
a expressão de um desastre
elementar
para que a forma do
caderno santé tome
vida
com o coração de renda

b.

il fait chaud
se vem o calor
acalmaria todo o espaço
quando a criança
era
um jovem batuta
não importa

c.

toda a angústia
clara no começo hediondo
é só a vontade de
cantar
pedem três entrelinhas
para homenagear
o decurso
de seu habitat.

trilogia da saudade (ou) capítulo inteiro de sentir-se em falta. 2009.

a.

reconhece que são
setenta e três bolinhas
amarelas azuis
e vermelhas
desembocadas na xícara

b.

diz-se que não há tempo
para as especulações
de seu movimento
como quando
por pura vontade vontade própria
despedaça
em são paulo

c.

no fim tudo é café
misturado com água do mar
doce e sal
podem ser nutritivos
quando não se tem
e se tem!
paladar

trilogia da saudade (ou) capítulo inteiro de sentir-se em falta. 2009.
a.

vai embora para
o inverno
que vem com o cheiro
do cigarro
e só ouço o barulho
das borboletas sem cor
no banheiro ladrilhado

b.

faz que desata
todos os nós
da árvore de natal
e queima a ponta
errada
do cigarro
para que miró
ascenda o losango

c.

entenda que seu
despertador
não conta os números primos
que versam sobre o capítulo
do livro
que de bonito,
meu bem,
regressa a grenoble
perto de paris
só há
dois cartões postais.

trilogia da saudade (ou) capítulo inteiro de sentir-se em falta. 2009.

domingo, 18 de outubro de 2009

você me deixou escrito que alguma coisa aconteceria.

eu aqui, sem dormir
faço de conta que aconteço na manhã seguinte
do mesmo horário de verão

pois eu sei que vou ficar acordado
e parado
quietinho para tudo o que possa vir

eu te deixei escrito que não saberia contar as horas.

domingo, 4 de outubro de 2009

eu vejo histórias correndo no centro de goiânia, vejo a moça dona do bar vendendo cigarro do paraguai, tudo mais barato, vejo a menina virar a alameda depois da faculdade, a casa cheia de amigos, vejo a tela do computador infestada de imagens, vejo o boneco de pano encostado na escrivaninha, vejo também o menino chorando quando se despede, vejo o homem traindo sua mulher desgostosa, que ainda não sabe, mas saberá, vejo a loja de artigos retrô inundada pela chuva de fim de ano, vejo a chamada do celular do outro menino, que gosta de verde, vejo eles cruzando a avenida para comprar sorvete, vejo o caderno de italiano e o boletim indicando pouco aproveitamento, vejo o passé composé do francês, vejo o insatisfeito trabalhador da padaria preparando o misto quente, vejo o amigo aparecendo no apartamento, tão disforme, tão inseguro, vejo o carro estacionado na rua principal, vejo o ônibus preparando as pessoas para descer no último ponto, vejo o segredo dele virando piada, vejo a manhã se recobrindo de passarinhos das primaveras, vejo tudo se aproximando para ficar em nonassílabo
eu vejo tudo isso em mim, todo dia, virando novas poesias